Terça-feira, Abril 21, 2009
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Carolina[11:19 AM]
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Segunda-feira, Novembro 12, 2007

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Carolina[1:07 PM]
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Sábado, Setembro 08, 2007
NÃO SABIA QUE EU, ERA EU
Por Toalá Carolina
Uma década depois, deitada em minha cama com o controle remoto amparado no peito do pé, descobri uma coisa que até hoje não havia entendido.
Tudo que eu fiz de errado comigo mesma era porque eu simplesmente não sabia que eu era eu.
Todas as vezes que me machuquei, ou quando permiti que me machucassem, era porque eu nem havia sido apresentada a pessoa que sou hoje, a qual tenho muito orgulho de ser.
Olhei para meu corpo, minha pele, olhei para minha alma e tive a obrigação moral de me pedir perdão.
Perdão por deixar, uma infinidade de vezes, as pessoas me depreciarem, me agredirem.
Qualquer um pode te dar costas, ninguém tem obrigação de passar o resto da vida ao seu lado, mas têm sim, obrigação de te respeitar.
Lembrei-me de alguns fatos ocorridos há alguns anos atrás, e está neste ano e sinceramente, quem era aquela pessoa que habitava dentro deste corpo?
Tenho mesmo a intenção de escrever minhas memórias, ajudar outras pessoas, outras mulheres, até homens, porque não. E no mais, não sinto vergonha de coisas que passei, de reações explosivas que tive, dos meus infinitos erros.
Sinto orgulho, não te der errado, mas de ter a capacidade de saber, que muitas das vezes, eu fui minha própria vítima.
Não me sinto inferior, as vezes preterida, mas acontece, nem tudo dá certo na vida, nós tentamos e isso não significa que conseguiremos, mas o que te faz levantar da cama todos os dias, mesmo porque ninguém passa dois, três dias dormindo, só em coma, é a FALTA DE ALGUMAS COISAS.
Faltar é essencial.
Faltar é fundamental.
Faltar é necessário.
Todas as pessoas que de alguma forma me faz algum mal voltou. Com exceção de uma, mas essa a vida se encarrega.
Eu não precisei mover uma palha para isso, e sobre a pessoa que falta, eu movi, não somente uma palha, movi céus e terras para chamar sua atenção e dizer:
-OLHA O QUE FEZ COMIGO SEU FILHO DA PUTA.
E sabe o que aconteceu? Essa pessoa jamais teve o dela.
Quem errou?
EU.
Errei porque fui inacreditavelmente burra, me machuquei em todos os sentidos, me expondo, me torturando, me humilhando, e permitindo que um pouco de mim se tornasse amargo, descrente, escuro.
Isso acontece com tantas pessoas, com homens e mulheres!
Eu me recordo de uma vez, aceitar um convite para sair com um cara, que a primeira vista nem me atraia, mas é aquela coisa, você acaba achando que isso vai solucionar parte de alguns problemas.
Digo-te com toda a segurança: PROBLEMAS NÃO SE RESOLVEM COM PROBLEMAS.
Sabe o que acontece quando se vende tão barato para uma pessoa que não tem cacife para “pagar” seu valor? (no sentido de respeito e sentimento)
Se vende por moedas, é comida como prato feito em boteco de quinta, aquele que deixa o cliente satisfeito é servida em tolha de plástico grudento, e ele ainda arrota no final.
E você se torna a gozada do dia dele e na sua própria vida, se torna mais barata.
Vale?
É isso que você vale?
Então manda se embrulhar e vende tudo por R$50,00 logo, são quilos e quilos de carne de segunda.
Quando eu desci toda arrumada, com meu perfume caro e minha Louis Vuitton, o cara estava de bermudas e camiseta surrada.
Levou-me para um maldito mirante, me beijou de forma nojenta, com um hálito de múmia e tentou me comer.
Eu fiquei pau da vida. Pedi para ele me levar de volta para casa.
O bruto disse:
-Mas não vai querer pegar um moltezinho?
Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm? O que?
MAS É CLARO QUE NÃO!
-Então o que quer? Por que veio até comigo?
Olhei bem dentro da cara dura dele e disse:
-Porque eu me gosto muito pouco rapaz.
Claro que ele me achou completamente louca, o que é natural.
Depois de muitos e muitos anos, me deu um CLIC.
Ele só comprou o que eu estava vendendo.
Carne.
Antes o sofrimento legítimo ao prazer fingido, como dizia Clarice S.
E o culpado não era ele, a culpada fui eu que passei a mensagem errada.
E tudo por que?
Por que simplesmente não sabia que eu, era EU.
E EU, não tenho preço.

Carolina[12:57 AM]
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Sexta-feira, Agosto 31, 2007
OLHOS NA CAIXA
Por Toalá Carolina
De repente e eu estava novamente em um cemitério, eu sabia que era mais um sonho, mas meus sonhos costumam a ser reais demais.
Era um cemitério gótico, cheio de túmulos antigos e corredores estreitos.
Passava por eles com dificuldades e pisava em flores murchas, tudo cheirava a flores estragadas, esmagadas, como damas-da-noite no verão. Cheiram quente, doce, quase sufocante.
Eu senti meu coração apertar, não sabia o porquê exatamente de acordar ali, no meio do cemitério, fiz como faço na vida real, vou andando para ver onde vai dar.
Observei túmulos deteriorados de todas as décadas, abandonados como seus mortos, sentei em um deles para rezar.
Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o vosso nom...
Olhei para frente, estava em frente a uma saleta de velório, muitas pessoas se aglomeravam, conversavam baixo entre si, tentei ouvir o burburinho, mas falavam baixo demais.
Disse-lhes:
-Os mortos não ouvem, podem falar alto.
Ninguém me escutava, falava ao vento, á toa. Resolvi me aproximar para ficar mais perto, para notarem minha presença.
A medida em que fui me aproximando, algumas passavam a ficar mais jovens, como num passe de mágica, pouco a pouco, lentamente, a aparência de duas senhoras bem idosas, passaram a ser de duas jovens vestidas como moças da década de vinte.
Escorreguei nas flores, uma delas me pegou pela mão esquerda, onde uso um anel em ouro branco e uma pedra de sorte, turquesa:
- Toalá, não me reconhece?
-Desculpe, não.
-Lindo anel.
-Obrigada, é a pedra do meu signo... Senhora...
- Eni.
Eni... Eni... Passei a fita-la como procurando qualquer semelhança com o nome que me era comum.
-Sua tia, irmã da sua avó paterna.
Claro... Claro...
Quando me dei conta de onde estava e quem era aquela senhora, olhei ao redor e me dei conta que estava no velório de meu pai. Um segundo enterro.
Sento um absoluto desespero, um medo terrível de ver o corpo do meu pai, no caixão, havia muitas pessoas entrando e saindo, de onde eu estava só conseguia ver a fina lâmina de vidro que transparecia seu rosto, o qual eu não queria ver.
Era uma oportunidade de enfrentar uma situação que na vida real, não tive peito de enfrentar e covardemente fiquei com um copo descartável de café ruim ao invés de tocar pela última vez o rosto dele.
Olhei novamente em direção ao caixão de mogno, rapidamente desviei meu olhar para um canto qualquer, notei minha avó ajoelhada, com um terço e xale nas mãos, sofrendo pelo filho morto precocemente, senti tanta pena, pela dela, pena do meu pai. Quis ter o poder de ressuscita-lo.
Estendi minhas mãos em direção ao seu caixão, com meus olhos bem cerrados, mas um sentimento visceral, cortante, e pedi: Pai, levanta daí, me conta uma piada do Chaves. Pai, a corda, faça a vó parar de chorar.
Nada.
Nada acontecia. Olhei para onde minha covardia me deixa olhar, a lâmina de vidro do caixão e não vi pingos de respiração nela.
Ele não voltou a respirar.
O cheiro de flor invadia meu peito, minha cabeça, era o cheiro da morte.
Saí daquele ambiente mórbido e com a visão turva de lágrimas tão grossas quanto petróleo que insistiam em não escorrer pela minha face, trombando ombro a ombro as pessoas que entravam no velório, e tirei um aparelho de mp3 do bolso, coloquei os fones no ouvido e a primeira musica que tocou foi Imagine – Beatles.
Sentei num muro e chorei, chorei muito, como não chorei na vida real no enterro dele, pois sufocava meu desespero com piadinhas cretinas e olhares dissimulados.
Quando voltei para o velório, o caixão já não estava mais lá, somente havia restado o terço e o xale da minha avó.
Mais uma vez perdi a oportunidade de o olhar pela última vez.
Sentei no chão de mármore mesmo, frio, gélido, me enrolei no xale, peguei o terço entre as mãos pressionando suas contas.
Interessante que minha bisavó entrou, me deu o que parecia uma caixa de lentes de contato, quando eu abri, eram lentes verdes meio amareladas, como a cor dos olhos de meu pai.
-Teu pai disse que tinha que ir, pois estava atrasado, mas me pediu para entregar-lhe as cores de seus olhos, para que nunca esqueça deles, esse verde amarelado é raro, abra a caixa toda vez que te der saudades. Você não tem o poder de traze-lo de volta a esta vida, mas tem o poder de mante-lo nela com você, dentro do seu coração, podendo visita-lo em sonhos como este. Ou abrindo a caixa para ver seus olhos.
Eu realmente entendi esse sonho.
Eu de fato vivi isso.
Só não trouxe uma pétala daquelas damas-da-noite porque não preciso provar nada a ninguém, mas essa noite, tive uma segunda oportunidade de viver o restinho do que não vivi naquele dia.
Pai, eu guardei dentro de mim a caixinha com a cor dos seus olhos, e se possível, venha me visitar mais vezes. Não em um cemitério, mas quem sabe num café, ou vendo o programa do Chaves sentado comigo no sofá?

Carolina[12:59 AM]
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Terça-feira, Julho 31, 2007
MAIS MEIGA, MAIS ESTÚPIDA.
Por Toalá Carolina
A janela dele, no meu msn, é a única de cor diferente da lista de 300 pessoas.
Claro, porque ele é a única pessoa realmente diferente disso tudo, é o único que merece uma cor nova, personalizada.
Mesmo porque eu fico trabalhando distraída, em meio de sonhos impossíveis e viagens improváveis esperando um azul marinho surgir na tela. É tão raro e quando acontece faz parar meu coração.
Ouço Toquinho: “de uma América a outra consigo passar num segundo...”
Ai, quem dera.
Perdi por certo tempo toda a inspiração para escrever, toda. Simplesmente não sai sequer uma linha decente, escrevo e apago, escrevo e apago. Nada faz sentido, escrever sobre dor não faz mais sentido porque sou inteira paz, inteira felicidade.
Escrever e apagar têm sido uma constante na minha vida. Tudo parece estúpido e toda minha segurança em mandar se foder, mandar pro caralho desceu por água abaixo.
Torno-me meiga, e ESTÚPIDA. Patética, submissa.
Fico sem saber dançar com as palavras que sempre dançam comigo, fodem comigo. As minhas melhores amigas, as letras querem me foder, de sabotar, me entregar.
Entregar uma menina tola, tonta e romântica.
Sou do mal, ruim, visto preto, botas e mando todo mundo pra casa do caralho. E agora?
Isso somente acontece quando me apaixono de verdade e detesto essa pessoa que toma conta da minha personalidade insuportável.
Tento ao máximo me manter fria, me manter nas rédeas do jogo. Gosto de jogos, gosto de ganhar, mas neste caso, sempre perco. Detesto que tire as peças das minhas mãos e ria da minha cara porque eu não tenho coragem de mandar tomar no cu.
Como eu queria ter essa coragem agora.
Mas eu estou rendida, amarrada, entregue. E esperneando para me soltar, não fico a vontade sendo dominada, meu papel sempre foi o outro, o de dominar.
Acho que na realidade é isso que me fascina, é saber que existe uma criatura que consegue o impossível, me deixar de quatro, me fazer perder a inspiração, fazer parar de doer minhas cicatrizes, tudo isso de tão... De tão...
Será que existem então coincidências? Umas 100 coincidências?
Então vou mudar meu conceito a partir de hoje se alguém me provar que isso existe. Caso contrario vou achar que está mesmo no meu caminho.
Não quero mais devorar barras de chocolates, tem muita endorfina aqui. Não quero mais dormir, quero ter insônia.
Quero encontrar uma frase no meio de 30 frases minhas, uma em azul, monossilábica, enigmática, fria. Às vezes quente, de surpresa. Pra jogar comigo, mostrar que tem um coração.
Mostra e acaba comigo. Depois some. Por vários dias...
Parece que estudou meu manual, parece que sabe como funciono e como um bom autodidata, aprendeu rápido e se diverte com minha estupidez.
Estou leve e levitando, caio me esborracho e me levanto, rindo, boba, sem controle, tentando desmistificar quem parece irreal, mito.
E pior, ele me entende. Quem me entende?
Mas jamais seriamos estúpidos juntos, jamais seriamos meigos também, por isso jamais estúpidos.

Carolina[12:06 AM]
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Segunda-feira, Julho 30, 2007
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Carolina[10:53 PM]
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Quarta-feira, Julho 25, 2007
PELO RALO
Por Toalá Carolina
Ela entra no Box para tomar banho e rezar um terço. Sim, um terço.
Acha que rezando e sentindo a água quente, quase em temperatura insuportável, lavará seus pecados, e segue em Ave-Maria.
É quase a lenda de “100 escovadas antes de ir para a cama”, mas ela usa a água como detergente. Detergente da alma.
Começa com os longos cabelos castanhos, quase em sua cintura, levemente ondulados e quando está totalmente molhada, senta-se no chão, recostando seu corpo bem feito nos azulejos azul-bebê da década de 40.
Ela pensa no moço, enquanto deixa água queimar levemente sua pele branca, mas já nessas alturas, rosadas de calor, ela sua.
Pensa que poderia dar o troco ainda, enquanto depila as pernas com a gilete sem corte, já cega, que nada tira, só irrita, como o moço, que persiste em sua mente. Assim como seus pelos finos e loiros, como os de seu pai, o moço também não quer ser arrancado dela. Quer ficar.
Ela faz as contas de quantos banhos tomou desde aquele dia, aquele dia que nada disse, só ouviu, enquanto pedia suas fotos de volta.
Que dia foi aquele. E que noites que seguiram.
Ficou horas debruçada em sua janela, de uma casa pós-guerra, metade original, metade reformada. Ficou vendo o moço partir, olhou até onde seus olhos conseguiam alcançar, cada imagem era preciosa, ela guardou todas.
Nada fez, não chorou, apenas foi tomar um banho, a noite estava gelada. Tudo estava gelado, ela recorda que sentou na mesma posição que agora estava, e ali, começou a rezar. E ali ela teve contato com seu corpo. Sua história, seu passado. Queria voltar para o útero de sua mãe.
Agradece também, por poder ainda se lembrar. Agradece a senhora que lavava seus cabelos longos que não conseguia tocar, ela pede que esteja onde a dama estiver, que Deus a abençoe.
No final do terço pede, lave-o de mim. Lave-o de mim.
Pega em suas mãos o sabonete de lavanda, e raspa no chão do box, fazendo o sinal da cruz. Gasta todo ele.
Contradizendo tudo que pediu em fervorosa oração, pede que o moço a chame para jantar, que ele buzine na porta na madrugada e desdiga tudo. Tudo... Por favor, tudo...
Tudo... Pelo ralo...

Carolina[7:30 PM]
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Segunda-feira, Julho 23, 2007
ADMIRAÇÃO DO MAL
Por Toalá Carolina
Não há nada pior que uma mutilação na personalidade, a falta do caráter e a lacuna nas idéias.
A pior forma de admirar alguém, é tentar ser esse alguém sem as mínimas condições para isso.
Quando alguém não se aceita como é, quando não acha que o que efetivamente é sirva para agregar, ou para se admirar.
Não me acho de modo algum exemplo de muita coisa, mas confesso que sou muito boa no que me proponho a fazer, sou ótima advogada, escrevo com paixão, me faço ser entendida, tento ser uma boa pessoa o que nem sempre é possível, mas sou humilde em pedir desculpas e me redimir. Porém certas coisas realmente me matam de raiva, são coisas imaculadas para mim, o que é meu é meu, e minha personalidade é minha não ouse tentar me copiar.
Desde criança eu sou líder, pode parecer um discurso narcisista, mas não é, sou uma líder nata, tenho talento em liderar e desculpe se te dói saber e ler que eu sei disso.
Jamais fui a menina mais bonita da turma, sempre fui a magrela, a dentuça a vesga. Mas sempre a líder, sempre a que namorava os garotos mais bonitos da escola, sempre a mais bem vestida, tinha que compensar a falta de beleza com roupas da moda e perfumes doces. Achava que quanto mais cheirosa, mais aceita seria, mais beijos ganharia, mais abraçada e mais querida.
E não é que minhas técnicas deram certo?
Nunca na minha vida segui alguém, nunca copiei uma outra menina, só a Barbie, mas ela já está acostumada não?
Sou ariana, meu nome significa a rainha do Sol da Indonésia, sou bruxa, tenho meus talentos e não sou perfeita.
Depois de certo tempo na minha vida, passei a ter somente amigos homens, pois estava cansada de ser copiada, imitada, mesmo sem querer as mulheres de quem me aproximo tendem a querer ser eu, pintam seus cabelos de loiros, querem comprar as mesmas roupas, mesmo se eu comprei no Brás, querem ter o mesmo cheiro da minha pele que geralmente é adocicada de vanilla. E pior, se ainda fosse só isso... Elas querem disputar amigos, disputar tudo! É um inferno mesmo porque eu não tenho porque competir ou disputara nada com quem realmente é uma cópia pirateada, barata e paraguaia de mim!
Fora que quando uma mulher se sente inferiorizada, ela obviamente não conseguindo atingir o objetivo de me usurpar ela passa a usar a técnica de homem preterido, passa a denegrir a imagem, a excluir da roda, a falar mal e assim consegue seus 10 minutinhos de fama sozinha na roda e tentando ser quem não é e jamais será,
eu.
Esse post
não é direcionado, mas serve para quem se sentir inserido. Muitas e muitas pessoas.
Para mim uma amizade acaba aí, quando me sinto novamente dentro do filme “Mulher solteira procura”. E infelizmente isso sempre acontece.
Isso tudo porque não sou merda nenhuma, mas não conseguem olhar para própria vida e sentir a plenitude de viver a sua própria realidade.
Acha mesmo que me importo com coisas tão pequenas, músicas tão insignificantes, rodas tão sem conteúdo, com o álcool que matou meu pai, com perfumes baratos, com historinhas pobres com festinhas de cerveja barata e carne de segunda? Realmente as pessoas não me conhecem.
Gosto do glamour, dos intelectuais, do dinheiro, dos animais, dos livros, dos escritores, da purpurina, dos jardins, dos cheiros doces, do frio, de unir...
A dor é tamanha que com certeza não terei um comentário aqui, pois não vai querer que eu tenha ibope, mas vai ler porque precisa se alimentar de mim. Me suga, me vampiriza, me rouba.
O que realmente me irrita é achar que eu realmente me importo com coisas tão medíocres (coisas médias para quem não sabe). É o fato de me imitar em tudo e além de não conseguir e ficar ridículo é não me conhecer mesmo a ponto de querer disputar.
Patético. Simones, Alines, Angelas...
São frases, imagens, gestos, queridos e queridas, letras, textos... TUDO!
Também não fico publicando "boletins diários" do que fiz ou deixei de fazer, mesmo porque não sou novela para me acompanharem.
Muitas pessoas que têm a extrema necessidade de falar isso e aquilo, sei lá porque, acho que a vida é tão bosta que se sentem melhores divulgando seus mini-problemas, mini-eventos.
E isso quando não ficam colocando foto com macho para dizer;
"Olha, eu tenho um pinto dentro de mim".
É, tem muita mulher que se sente completa só quando um pinto entra nelas. Lacunas...
O momento agora é me reservar para esgotar a fonte de inspiração do fã-clube do mal, trabalhar, escrever, curtir as noites, os dias, as luas, os cafés, os livros... E tudo isso acompanhada da melhor pessoa do mundo para mim.
EU MESMA.

Carolina[11:05 AM]
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Segunda-feira, Julho 16, 2007
SETE MEIAS - FIO 80
Por Toalá Carolina
Parei na vitrine, algo me chamou atenção.
Muitas meias, todas fio 80, pretas e para o inverno. Isso me remeteu há alguns anos atrás, nunca mais consegui usar fio 80 e o motivo não é nada simples.
São lembranças picadas, como película remendada antiga, certas coisas são claras, outras lembranças danificadas, acabo por esquecer e lembrar do nada, isso é o que costumam a chamar de trauma.
Segundo Freud, que só recordamos o que suportamos recordar e quando parei na frente da loja veio como uma bomba, como uma cena de um filme.
Na pior época da minha vida, na mais confusa, na mais louca eu me vi presa numa cama, por dias e dias, às vezes sem saber se era dia, se era noite, se era madrugada. O som mais comum aos meus ouvidos era do meu estômago roncando alto por não conseguir comer absolutamente nada.
Passei a sentir muito frio, perder peso rápido demais, perder cabelo.
Maldita doença, doença maldita, doença da alma.
Não conseguia deitar na minha própria cama, pois não suportava não ouvir o telefone tocando para mim ou não suportava o telefone tocando não sendo para mim, uma verdadeira tortura. Quando me arriscava atender, cheia de esperanças alucinógenas, a queda era alta demais por ouvir que não era quem eu queria que fosse.
“Ele não pode ser não frio assim, um dia ele vai ligar”.
Ledo engano, esse telefonema
JAMAIS aconteceu.
JAMAIS.
Passei a sentir mais frio que o normal, dormia em posição fetal, chorava sem interrupção, minhas lágrimas simplesmente não queriam secar. Fonte interminável de água quente e salgada que terminavam secando no meu rosto e na minha boca, eu bebia minha da minha desgraça em forma liquida.
Qualquer som externo era um inferno, irritante, desesperador.
Não suportava ver felicidade alheia.
Não queria saber se era sexta ou sábado, pois provavelmente ele sairia para se divertir, com outra pessoa, a idéia era simplesmente insuportável, porém não era uma opção e sim uma condição. Não era dona dele, não era proprietária do corpo dele, sequer tinha um espaço dentro do seu coração, enfim, não estava em lugar algum.
Fui excluída de tudo como se eu tivesse alguma doença contagiosa, minha doença incomodava, minha loucura e insistência se tornaram uma espécie de antídoto de amigos.
Vestia sete meias, fio 80, para parecer mais completa, com pernas mais torneadas, com alguma forma de mulher, e também para conter o frio cortante que eu sentia.
Sete meias... Sete camadas de uma suposta proteção, elas me faziam carinho, me esquentavam, me faziam dormir. E eu só queria isso, dormir e talvez acordar em outra realidade.
Lembro-me de um dia, já muito debilitada, comer. Fui até a cozinha, com muita vergonha de atravessar os outros cômodos da casa, de cabeça baixa para não encarar o julgamento de pessoas que simplesmente me deram as costas e não entendiam que eu estava doente, e sentei em uma cadeira de uma cozinha gelada.
Chorei na frente de uma travessa de almôndegas. Sentia tanta fome e ao mesmo tempo precisava definhar mais e mais, para quem sabe, chegando no limite da minha resistência, voltar como Phonix das cinzas. Mas me dei conta que era tolice, olhando para meus 45 quilos, vi que já havia ultrapassado esse limite havia tempo demais e era a hora de retomar as rédeas da situação.
Cortei um pedaço, mastiguei.
Acho que foi a comida mais gostosa que comi na minha vida. Não era somente comida de entrava no meu corpo, era vida que a cada garfada entrava na minha alma era atitude de me manter em pé.
Ah se eu pudesse ter escolhido lhes garanto, não teria reagido dessa maneira a um abandono. Mas não tive essa escolha, a situação aconteceu e eu tive que enfrentar.
Tive que passar por cada uma das etapas para poder me recuperar.
Não foi um abandono de homem e mulher, foi um abandono moral, um abandono na realidade imoral, covarde e gelado. Eu passei por muitos relacionamentos na minha vida, todos eles tiveram um fim, como acontece na vida de todo mundo, pois nada é para sempre, e nunca fiquei assim, nunca. Aceito o fim das coisas, é natural.
Confesso que até hoje é uma coisa da qual não me conformo, a maneira como fui tratada, como fui destratada, preterida, tratada como carne, como insumo hospitalar.
Eu sonho com isso pelo menos uma vez por semana, estou presa num passado dolorido e negro do qual não consigo me libertar de forma alguma, por mais que eu tente.
Dói, dói. E lamento.
Lamento acima de tudo a minha falta de estrutura na época, minha imaturidade e a falta de poder perdoar e seguir, sem olhar para trás.
Penso que adoraria que tudo aquilo acontecesse novamente com a cabeça que tenho hoje, mas é inútil pensar nisso, pois eu não teria a cabeça de hoje se não tivesse tido essa experiência.
São os extremos em sua totalidade, nunca fui tão feliz na minha vida e nunca fui tão infeliz, a ponto de perdurar tantos e tantos anos, viva como ferida que não cicatriza, pulsante e aberta, infeccionada.
Posso viver essa felicidade se fechar meus olhos e lembrar de certas coisas, certos cheiros, certos olhares, e revivo toda a desgraça em frente a uma inocente vitrine de meias.
Jamais irei me recuperar disso.
Estrago tudo quando vejo que estou feliz, me saboto, me traio porque acho que a minha chance de felicidade passou, não sou merecedora de novas coisas.
Sinto vergonha em falar isso para alguém, não quero mais parecer a Glenn Close em "Atração Fatal", foi mais ou menos o que me tornei naquela época.
De fato enlouqueci, surtei, perdi o controle, e acho plausível assumir e aceitar meus erros.
Claro que segui em frente, errado muito e acertando um outro tanto, enfim estou aqui com dez quilos a mais e uma cabeça infinitamente mais madura.
Poxa! Sinto muito...
Sinto não ter sido melhor, sinto não ter sido morena, sinto não ter nada que me fizesse respeitar e amar.
Sinto muito vestir sete meias fio 80 para ver minhas pernas menos finas e me sentir protegida por elas.
Sinto não entrar nessa loja agora e comprar uma para mim, já que está fazendo tanto frio e ela ficaria linda com minha saia cinza e minhas pernas bem feitas hoje.
Sinto muito por ainda doer tanto.

Carolina[9:43 PM]
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Quarta-feira, Julho 11, 2007
A LUA DE MIRANDA
Por Toalá Carolina
É impressionante a grande quantidade de pessoas sem alguma função na vida – Pensa Miranda.
Ela não pensa no sentido de emprego ou ocupação na vida, mas sentada em frente a uma fonte, observa pessoas indo e vindo, que apesar de estarem andando e aparentemente ocupadas, não fazem a menor diferença no mundo.
Miranda às vezes acha que esta vida não passa de um grande Teatro de Deus, onde, ela faz o papel principal e as demais, figurações.
O que parece um pensamento de menina mimada, na verdade é seu signo e seu nome, que em fusão e com energia demais para um corpo só, grita às vezes. Miranda acredita que a modéstia foi criada para medíocres. E parece não se importar com pensamentos tão narcisistas.
Dia trinta e um de Maio é lua cheia, Miranda já pode sentir sua lua. Miranda é de certo bruxa e parece que descobriu que a lua cheia lhe mais poderes do ela própria já pôde constatar.
Miranda tem uma teoria, ela sabe que a lua move todas as águas, faz subir e descer as marés, deixa os rios bravos e mansos, e de certo, o corpo humano é todo movido em sua grande parte de água, é aí onde mora o segredo.
Ela pensa em tudo isso, pois está olhando fixamente a água que jorra da fonte centenária no pátio do Hospital. Não tem ninguém lá, mas às vezes, em dias frios de outono, passa por lá e senta-se no banco gelado de cimento e come nhá benta.
Miranda pode sentir todas as fervorosas orações que são feitas diariamente ali, pessoas angustiadas que clamam por Deus pelos seus enfermos, no mesmo banco onde senta agora.
Claro, ali existe energia.
Joga uma moeda na água, faz um pedido. Pede que Deus jamais tire o dom das palavras, da escrita, da poesia, de suas mãos. Como fez o Rei Salomão, pede sabedoria também.
Está aí, o que se pode ter de melhor na vida, eternizar as situações e as pessoas num pedaço de papel, não prende-las, mas deixar tudo viver para sempre, nos poemas.
Isso ninguém tira dos artistas. O dom de eternizar.
Tudo ainda existe, até onde você pode se lembrar, TUDO ainda tem vida enquanto está claro na mente.
Ninguém morre de fato enquanto ainda as pessoas pensam em quem partiu.
Miranda escreve tudo isso ao som da água que jorra e cai, jorra e cai. É a mesma água, mas todas as vezes que ela volta faz um desenho diferente e assim são as pessoas. Todas as vezes que alguém cai, levanta de um modo diferente, mais experiente, mais maduro.
Miranda pensa nas pessoas queridas que se foram, não só as que estão mortas, mas que também estão vivas, dentro dela. Passeando dentro de seus sonhos e de suas lembranças.
São pessoas importantes para Miranda, e como uma bruxa ela sente o quanto isso ainda lhe rende, o quanto isso ainda se torna poesia.
Foram somente sete meses...
Sete... Sete... Um sete marcado, cravado, predestinado. Esses dias ficariam para sempre em seu sangue e em seus ossos e com certeza com porquê místico.
Miranda joga outra moeda.
Molha as mãos na água gelada, e que de tão gelada, amortece seus dedos.
Volta seu olhar agora para a garoa que cai em São Paulo. Linda e soberana. Joga o papel da sua nhá benta dentro de sua bolsa, e como uma bruxa moderna vai a pé para casa. Sem essa de vassoura vai....

Carolina[7:33 PM]
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Quarta-feira, Julho 04, 2007
MENINO DEUS
Por Toalá Carolina
As madrugadas daquele ano eram lindas e negras. Ela não dormia mais, era horrível dormir e acordar naquela realidade insuportável. Ficava acordada, pensando, chorando, sonhando com alguém que jamais voltaria.
As três e quinze da manhã estava atenta, para oração para seu anjo da guarda. Infante, tinha lido em alguma resista de consultório que pela hora que nasceu e dias, seu anjo chamava Achaiá e passava pela terra as três e quinze da madrugada. Por puro desespero ela esperava por ele com um único pedido. “Traga-o de volta”.
Era assim, toda à noite, regada à coca-cola e café, para esperar a visita de quem acreditava levar recados para Deus.
Durante muitos meses era a mesma coisa, o anjo da guarda da moça deveria estar de saco na lua de tanto ouvir a mesma ladainha desesperada e insistente.
Quando ela percebeu que o anjo não queria ajuda-la nesse sentido, resolveu a muito contra gosta mudar seu pedido, entregou sua vida nas mãos Dele, e consentiu que somente Deus poderia liberta-la daquela situação que parecia não ter um final feliz.
De janelas abertas, em seu apartamento amplo, eu seu quarto infantil sentiu uma certa magia, uma sensação no coração, em noite de lua cheia amarelada, soube que alguém lá em cima mudara alguma coisa que ela até então não sabia.
Junho.
Acordou pela manhã sentido um ódio terrível do seu computador que não queria nem por reza brava entrar na internet. Ah não! Tudo menos aquilo!
Passou o dia inteiro ouvindo o barulho enlouquecedor da conexão discada, num pc 486 e sempre sem resposta.
Quando anoiteceu piorou, estava viciada no bate-papo ZAZ, sala São Paulo onde usava o codinome Shevva®, onde havia feito amigos e inimigos virtuais, onde segurava suas agonias e podia descontar em todos sua raiva do mundo.
Ela não era ela ali, ela era só um apelido. Podia falar o que quisesse.
Seu quarto cheirava a vela de mel cravejada de cravos e coberta de canela. Bruxa, ela fazia rituais WICCA para atrair, afastar, quebrar e construir.
Sentou-se à frente do computador e se irritou ainda mais quando percebeu que até ele estava contra ela! O mundo conspirava contra ela!
Pegou um pote de sorvete de flocos e comeu a metade colher, em frente à TV, procurando enganar seus pensamentos obcecados. Não recebia mais telefonemas de amigos, nem do seu amigo que ligava nas madrugadas, todos se cansaram de sua conversa com o mesmo assunto. Compreensível.
Assim, num intervalo comercial, viu uma propaganda ruim, onde mostrava jovens ao telefone, fazendo amigos, marcando baladas, todos sorriam felizes.
Um chat por telefone? Não... Não se rebaixaria a tanto.
Ou se rebaixaria?
Pegou o telefone, discou timidamente “145”.
Quando tocou, desligou.
Não acreditava que tinha chegado naquele ponto de ligar em um disk-amizade. O que tinha de errado com ela?
Não tinha um mural de fotos com amigos de colégio, não tinha fotos na balada, não tinha camisetas de uniforme escritas a caneta com assinaturas góticas. Não tinha amigos.
Agora, teria que começar do zero. Fazer tudo que uma moça de 20 anos fazia. Sair, dançar, rir, estudar, trabalhar.
Por onde começar?
Ela não sabia sequer por onde começar. Sentindo-se patética e feia, julgou merecer fazer parte dos patéticos do disk-amizade.
Discou 145.
Tocou. De repente uma confusão do outro lado, muitas vozes, nada audível. Um blá blá blá irritante interminável, todos tentavam se apresentar, com nomes obviamente fictícios, e ela muda. Só tentava ouvir com o telefone preso aos ombros e cabeça e com a outra mão com a colher dentro do pote de sorvete desgelado.
Mudava de sala o tempo todo, pessoas conversavam do modo que era possível e passavam seus e-mails, telefones pessoais. Era arriscado demais! Mas a distraia, era o que importava. Ouvir vozes humanas e tão solitárias quanto ela, em busca de alguém no mundo, em busca de uma noite de diversão, tentam a qualquer preço fugir de suas próprias vida e de sua realidade.
Vida vazia. Noite vaga. Tempo jogado fora.
Passou ser rotina entrar a meia noite e sair quando o dia estava clareando, por volta das seis. Muda. Calada.
Toda vez que ligava ouvia uma voz macia, quente, despretensiosa. Dizia ser Victor.
Toda noite ele estava lá, e ela muda, ele falante e galanteador pedindo nomes e telefones das meninas que ali estavam, e ela o acompanhava pelas salas, sem ele saber, pois ela nem falava.
Até que uma noite, cansada de ficar no anonimato, discou decidida a falar com o dono daquela voz macia, entrou e não o encontrou. Passou a noite toda, de sala em sala, perguntado por Victor. Nada.
Na noite seguinte teve mais sorte, depois de muito pressionar a tecla asterisco de seu telefone para mudar a sala, achou Victor em uma conversa com uma moça chamada Raquel.
Prestou atenção na conversa, ele era muito educado, sua voz era mansa, confortante, aveludada. Seu coração batia lentamente ao ouvir a voz de Victor e respirou fundo, com um prato de miojo de tomate, com a boca cheia dizendo um:
-Oi.
Victor prontamente respondeu:
-Oi... Quem é?
-Karol e você?
-Victor.
-Fala de onde Victor?
-Zona Norte e você?
-Zona Sul.
Iniciaram uma conversa, tímida, atenciosa. O coração de Karol batia mais acelerado, finalmente tivera coragem de se apresentar e quebrar um preconceito de conhecer pessoas no escuro. Não tinha mais nada para perder. O saldo não poderia ficar mais negativo do que estava. Arriscar era o negócio.
Magrinha demais passou a comer ao telefone, esperava dar meia noite para ligar, pois sabia que poderia falar até as cinco, sabia que Victor estaria lá, sabia que quando o dia amanhecesse estaria bem para finalmente dormir. O tal sono dos justos, aquele tranqüilo, leve revigorante.
Karol e Victor passaram a se encontrar por telefone, até o dia que o sistema do 145 estava ruim demais, derrubando todas as ligações, tendo de ligar toda hora e buscar Victor em uma sala e ele também procurava por ela. Até quando se acharam e ele disse:
-Karol, anote meu celular caso caia de novo.
-Victor, desculpe, eu não anoto o telefone de ninguém – Disse resistente.
Pensou. Pensou.
-Ok, me passa seu número, não prometo que ligarei.
Victor compreensivo passou o número. Ela anotou numa agenda velha, com capa de couro marrom, com batom vermelho, pois não encontrara caneta alguma.
Quando confirmava o número, a ligação caiu.
Era a hora de decidir se ligava no celular de Victor ou não. Correu para sua janela, escancarou-a para ver a lua, para perguntar para as estrelas se deveria embarcar nessa. Voltou seus olhos para o telefone e resolveu ligar.
-Oi Ka, que bom que ligou, estava esperando. Demorou...
Inventou uma desculpa.
-Sim, fui desligar a chaleira e fazer um chá.
Grande mentirosa ficou na realidade em um grande dilema, foi até indagar as estrelas que não falam. Louca.
Passaram a falar de suas vidas, ou inventar sobre suas vidas. Quando conhecemos alguém que nos interessa, queremos mostrar nosso melhor lado, contar nossas melhores histórias, nos escondemos atrás de apelidos, inventamos alguma coisa que julgamos atrativa. Tudo em prol de trazer alguém para nosso lado.
E assim passou a ser, trocaram os telefones de casa, e os encontros passaram a ser toda meia noite, em seus telefones, abandonando o impessoal 145, horas e horas pendurados ao telefone, falando sobre seus sonhos, medos, aventuras. O que pode ser bobagens para uns, pode ser a salvação de outros. Karol estava envolvida com Victor, 23 anos, jogador de futebol, filho de clinico geral, apreciador de pagode, um menino cheio de encanto que cantava para Karol do outro lado da linha, do outro lado da cidade e mesmo em mundos tão diferentes, sonhos tão diferentes eles se apaixonaram sem ao menos nunca terem se visto.
Karol abriu suas janelas, suas portas, colocou o armário em ordem, buscou antigas fotos fazendo um enorme mural, comprou uma abóbora de porcelana gigante dessas de dia das bruxas. Seus dias não começavam mais em miojo de frango e terminavam em mijo de tomate, passou a comer de verdade, a sonhar com a linda voz de Victor, com suas promessas de amor, e precisava ficar sabia e bonita para um dia que criasse coragem, pudesse encontrar pessoalmente.
Escreveu-lhe uma carta, de punho próprio, na escrivaninha que foi de seu avô, dia de festa de aniversário de uma irmã em casa. Escreveu tudo que sentia e mandou uma foto, uma foto que era uma brincadeira, batida em frente ao espelho de forma proposital para o flash tapar seu rosto.
Mandou.
Avisou a Victor que lhe mandara uma foto por carta. E ele passou dois dias na portaria do prédio esperando o carteiro passar. E quando chegou, deu risada.
Uma noite, uma madrugada, Karol confessou que estava apaixonada.
Ora, que loucura! Apaixonada por alguém que nunca viu?
Quando ligava na casa de Victor, todos já conheciam. Foram dias e dias de conversas mágicas, chegaram a dormir com os telefones na orelha, sem desligar.
-Victor... Dormiu?
-Dormi e você?
-Também... (risos)
-Onde estávamos?
Dia doze de junho, dia dos namorados. O BIP de Karol soou a noite.
O BIP estava perdido em algum lugar da cama desarrumada, Karol revirou atenciosamente.
Aquele dia doze era o dia que Victor marcou para se encontrarem, na Boate The Pool, mas Karol não teve coragem, inventou uma desculpa qualquer, mesmo querendo MUITO conhece-lo, mesmo seu coração batendo forte por ele, seu corpo pedindo por ele, tudo pedia por ele.
Não tinha coragem, e se ele a achasse feia? E se ele fosse muito feio? Se pudesse ter alguma idéia, pela voz, pelo carinho ele seria lindo. Se fosse feio, teria que encarar porque tinha se apaixonado pelo que ele era.
Quando leu a mensagem que corria no BIP leu:
“Ka, estou aqui na boate, hoje é dia 12 de Junho dia dos namorados, no ano que vem, nesta mesma dada, estaremos juntos. Um beijo Victor.”
Nossa, o coração dela parecia querer saltar pela boca, as famosas borboletas no estômago fizeram uma verdadeira revoada em todo seu corpo. Estava apaixonada.
Curiosamente aprendeu uma coisa, na marra. Entregar sua vida nas mãos de Deus é muito mais inteligente do que pedir algo especifico que nem sabe se te fará bem.
Quando Karol parou de pedir, simplesmente aconteceu, de forma louca, improvável e mágica, um amor para ela, para cicatrizar suas feridas, suas ulceras.
Jogou a vela de mel fora naquela noite. Deu-se a chance de viver algo novo, tranqüilo, transparente, honesto. Para Victor, ela não era a louca obcecada, nem a doente magra demais, fraca demais. Ela era o amor dele. Do jeito que vinha. E karol não escondeu nada de sua história para ele, contou-lhe tudo sem nada omitir, ele pacientemente ouviu sem julgar. Não mudou nada para ele.
Mudou para ela. Mudou tudo para ela.
1600 formas de amar, 1600 formas de querer.
A cada dia que passava ela tinha mais convicção que ele havia sido enviado dos céus, de presente. Até que chegou o dia de enfim se encontrarem.
Ele descrevia-se como moreno, atlético, alto, disse:
-Pareço o Lenny Kravitz.
Porra, fodeu.
Lenny Kravitz? Ah não!
Ela disse:
-Eu pareço... Pareço... Põe na Hebe Victor, pareço essa loira de preto sentada no sofá.
Fodeu, fodeu, fodeu. Ele parecia ser tudo que era não queria, e ela tentou passar uma imagem do que ele queria.
Combinaram para o dia seis de Junho de 1999. Boate Sant Paul. Alameda Lorena, 23:00.
Ela passou o dia inteiro buscando uma roupa adequada, que a deixasse menos magricela, mais bonitinha. Escolheu calça preta, blusa preta decotada, salto, jaqueta cru.
Fez uma maquiagem leve, unhas vermelhas.
Faltava uma coisinha.
Como ir?
Não tinha como ir, sair de casa as 22:00 para estar as 23:00, de salto, sozinha, encontrar um estranho que não era mais tão estranho.
É estranho, de verdade não é necessário olhar nos olhos de alguém para se conhecer a fundo uma pessoa. O que era desconhecido era somente o corpo dele, mas sua alma já era uma velha conhecida. Mas mesmo assim, com tantas histórias de psicopatas que marcam encontros às escuras e a vítima acorda em uma banheira de gelo sem os rins, era normal ficar apreensiva.
Pensou em ir sozinha mesmo, de táxi, mas quando se deu conta do nervosismo bolou um plano cruel.
Karol tinha um admirador, um cara muito chato e horroroso que ficava no seu pé, fazia qualquer coisa por ela.
Maquiavelicamente Karol telefonou para ele, convidando-o para ir à Boate, como amigos, mas para lhe fazer companhia, ele cheio de segundas intenções imaginando que era a chance dele, prontamente aceitou. Combinaram que ele fosse busca-la na porta de casa.
Como tudo que tem a chance de dar errado efetivamente dá, quando Karol estava nervosíssima andando de um lado para outro, encosta um Fiat 147 caindo aos pedaços literalmente (com a porta do passageiro pendurada).
Era o cara da carona. O chato que agora parecia estar falido e fodido.
Ela sem opções, em cima da hora resolveu encarar a situação.
Lenny Kravitz estava esperando.
Quando ela entrou no que o moço chato chamava de carro, o celular dela tocou. Era Lenny.
-Estou na porta. Mas antes que chegue preciso te confessar uma coisa.
(Isso por acaso é hora de confissões?).
-Não pareço o Lenny Kravitz, pareço o Alexandre Pires.
O quê?
O que mais poderia acontecer de pior? O cara chato vestido como o Tiririca de calça laranja e cinto de metal, com botinha preta e pontinha de metal, para combinar com o cinto cromado. Ela segurando a porta do passageiro para não cair para fora do carro e agora o Lenny Kravitz como num passe de mágica tornou-se o Alexandre Pires. Parece ruim?
E quando o Tiririca disse com um olhar tarado:
-Hoje a noite é nossa gata!
É. Os deuses estavam castigando-a.
Quando chegou na porta da boate, ela pediu para o Tiririca deixa-la um pouquinho mais a frente afim de Victor não presenciar a chegada dela dessa forma e nem com outro cara, ele não entenderia nada.
Assim fez, o Tiririca ficou muito Tiririca da vida, pois achou que Karol havia lhe pedido isso por vergonha do carro. Ora, o que ele esperava? Que ela sentisse orgulho de sair na porta da boate bombando com a porta do passageiro na mão?
Ele ficou estacionando a lata velha e ela correu para Saint Paul. Quando chegou na porta mal sentia suas mãos, estava tudo amortecido de nervoso. Pegou sua comanda e entrou num pulo só, como banho frio no inverno, se parasse para pensar na insanidade não teria entrado, então não pensou. Deixou o Tiririca para trás.
Quando entrou, não via nem ouvia nada direito, tocava um som alto demais, muita fumaça, era tudo bem confuso. Ela tentou se camuflar no canto do bar onde tinha muita, mas muita fumaça. Agora se escondia dos dois.
Pediu Amarula, não bebia, mas precisava de alguma coisa que a fizesse mais valente.
Tomou e percebeu que havia feito besteira, ficou tonta como uma barata com Detefon na cara. Sentiu uma mão no seu ombro.
Quando olhou para trás se deu conta que aquele lugar era pequeno demais para abrigar ela e o Tiririca. Ele a achou. Ela só buscava com os olhos alguma coisa semelhante ao Alexandre Pires.
Num repente, em meio da confusão, entre a Amarula e a fumaça, entre o sonho e a realidade, a imagem de um menino surgiu.
Lindo, vestindo calça cru e camisa rosada, pele de ébano, alto, de brinco, sorriso perfeito. Quando ela o olhou seu coração disse: Sim.
Ela não se aproximou, achou ele bonito demais. Se não era ele, se por acaso tivesse enganada, ela queria que fosse. Ficou lá, parada, sentada, observando ele andando de um lado para o outro olhando o visor do celular.
Ela riu. Só poderia ser Victor esperando que ela desse um sinal de vida.
Quando notou seu BIP estava tocando. Mensagem que dizia.
“Se você for essa loira que está na minha frente e não veio falar comigo, está fodida”.
Riu, riu, riu.
Olha olhou em sua direção, mas não foi.
Victor foi mais esperto, percebendo que ela estava acompanhada do Tiririca pois ele não parava de falar abobrinhas no pé do ouvido tentando desesperadamente fazer aquela carona valer alguma coisa, foi falar com ele. Ele quem?
COM O TIRIRICA.
Perguntando se a moça que o acompanhava chamava Karol.
Tiririca, já pra lá de Tiririca disse que sim, virou-se para Karol e disse:
-Você por acaso conhece aquele moleque? Ele disse que te conhece e quer falar com você.
Uiiiiiiiiiiiiii
Chegou a hora da verdade para os dois. Karol levantou-se e em passos bambos seguiu em direção de Victor. Quando o olhou nos olhos derreteu. Era ele.
Abraçaram-se por um longo tempo. Ela já não escutava a musica, nada mais existia, só ela e ele. Ele e ela.
Dançaram. Ele a beijou.
Passaram a noite inteira abraçados, juntos, felizes.
Tiririca viu tudo e foi embora muito raivoso, ela só o usara para segurança e carona. Bem que ele merecia, era um grande canalha.
Quando já estava amanhecendo, eles foram embora, ela de táxi, ele com os amigos. Antes de se despedirem ele a agasalhou vestindo a blusa e abotoando até o último botão para ela não sentir frio e a colocou dentro do táxi.
Quando ela chegou em casa, de sapatos nas mãos e coração curado ela notou que Victor havia deixado o celular na bolsa dela. Ligou para seu próprio numero dizendo que havia feito de propósito para garantir um novo encontro.
Victor foi buscar o celular e nunca mais foi embora da vida dela.
Ficaram juntos por anos. Ele a fez feliz, ele cuidou dela, eles cresceram juntos, entraram na faculdade juntos, viajaram, eram inseparáveis.
Acabou depois de muito tempo, mas acabou fisicamente, são amigos até hoje. Ele se casou, ela também, mas jamais vão esquecer o que viveram.
No final das contas, tudo valeu a pena. Victor e Karol são inseparáveis. Eles sempre irão existir porque é uma historia linda para se contar.
A moral da história é, não peça nada para Deus, peça o melhor para Deus, certamente ele atenderá.
O Menino Deus é ele.
"Menino Deus, um corpo azul-dourado
Um porto alegre é bem mais que um seguro
Na rota das nossas viagens no escuro
Menino Deus, quando tua luz se acenda
A minha voz comporá tua lenda
E por um momento haverá mais futuro do que jamais houve
Mas ouve a nossa harmonia
A eletricidade ligada no dia
Em que brilharias por sobre a cidade
Menino Deus, quando a flor do teu sexo
Abrir as pétalas para o universo
E então, por um lapso, se encontrar no anexo
Ligando os breus, dando sentido aos mundos
E aos corações sentimentos profundos de terna alegria no dia
Do menino Deus
No dia do menino Deus
Menino Deus, um corpo azul-dourado
Um porto alegre é bem mais que um seguro
Na rota das nossas viagens no escuro
Menino Deus, quando tua luz se acenda
A minha voz comporá tua lenda
E por um momento haverá mais futuro do que jamais houve
Mas ouve a nossa harmonia
A eletricidade ligada no dia
Em que brilharias por sobre a cidade
Menino Deus, quando a flor do teu sexo
Abrir as pétalas para o universo
E então, por um lapso, se encontrar no anexo
Ligando os breus, dando sentido aos mundos
E aos corações sentimentos profundos de terna alegria no dia
Do menino Deus
No dia do menino Deus"

Carolina[2:35 PM]
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Segunda-feira, Julho 02, 2007
PELE ARMÊNIA
Por Toalá Carolina
Azulada, fria e gelada.
Quente, forte e louca.
Armênio, você não faz a menor idéia de quem eu sou, ou quem eu fui, ou em quem me tornei.
Nunca me viu que meus olhos não são verdadeiramente castanhos, pois só me viu no breu, no quarto, jamais olhou para meus olhos na luz do sol para ver que ele tem outras cores.
Nunca passou horas conversando comigo para saber do que eu gosto, o que eu ouço ou o que eu penso sobre as pessoas e todas as coisas.
Não sabe nada sobre mim.
Nem sobre meu corpo.
Nem sobre meu Deus, minhas crenças. Descrenças.
Conheceu minha carcaça. Conheceu meu avesso.
Você sabia que eu escrevia? Sabia que gosto de frio? Sabia que eu era inteligente?
Acho que não. Seu egocentrismo não deixaria.
Nunca alguém se enganou tanto em um julgamento de valores. Errou feio comigo heim armênio?
Talvez tenha sido o pior erro da sua vida. Em todos os sentidos.
É muito fácil ser leviano com alguém quando se percebe que a pessoa é vulnerável?
O que eu poderia saber sobre a vida há dez anos atrás?
Ai meu Deus, eu me apaixonei de forma definitiva, com toda minha imaturidade e fui absolutamente fraca, não me reconheço naquela pessoa.
Nem de longe sou passiva, nem frágil e não admiro ninguém mais do que admiro a mim mesma.
Não sei o que aconteceu.
Até hoje tento entender aquele sentimento avassalador, destrutivo.
Acho que era uma espécie de casa de ninguém, de portas e janelas abertas. Aquela que qualquer um entra e faz o que quer.
Foi assim que você entrou, encontrou a porta escancarada e casa vazia. Por isso tomou conta de toda ela. Por isso foi embora se maneira leviana e sem ao menos limpa-la por dentro. Deixou lá, aberta, destroçada, pronta para qualquer delinqüente entrar para usar as drogas mais pesadas.
E quanto tempo eu levei para colocar a casa em ordem, pintar minhas paredes de branco para cobrir o vermelho, reconstruir os muros de proteção, fazer uma faxina geral, consertar os vazamentos... Vazamentos...
Eu vazava lágrimas e sangue por todos os lugares possíveis.
Onde você estava?
Absoluto e seguro da sua grandeza, subindo e descendo as ladeiras do centro da cidade, contando que com certeza fez a coisa certa.
Errou.
Errou de novo.
Eu nunca te perdi, pois não se perde o que não se tem. Mas você me perdeu, porque fui sua.
Quem está no negativo não sou eu, acredite. Eu ainda fiquei com você dentro de mim de herança, uma herança que com certeza se tivesse algum tipo de poder, teria tirado até sua imagem de minha mente como me tirou a paz, as fotos, as cartas.
Viu como não é tão poderoso armênio?
Não pode entrar dentro de mim. Não pode arrancar essas palavras, nem esse texto, nem meu talento.
Não pode arrancar as lembranças do que me fez do meu peito, nem das marcas do meu útero.
Você não pode nada.
Desmistifiquei você, decodifiquei você, hoje eu explico você.
Se fosse um jogo diria, cheque mate armênio.
Sem querer me fez forte, sem querer me fez bela, sem querer me deu segurança.
Porque se quisesse fazer isso não conseguiria, fez por acaso, não faz isso nem por você quem dirá por alguém estranho.
Perdeu não uma mulher. Perdeu uma amiga, perdeu uma alma, perdeu várias oportunidades de conhecer uma pessoa.
Eu sou humilde em dizer que lamento muito.
E humilde em agradecer o que fez por mim. Fez-me fria como sua pele armênia, me fez forte como você finge ser, porque ao contrario do que pensa, ser forte não consiste em largar uma moça de 21 anos sangrando e apaixonada, ser forte é ser largada sangrando e perdoar a ponto de te abraçar.
Faz-me rir hoje, és uma fraude de olhos verdes legítimos. Nem você acredita no que finge ser.
Ok armênio?
Espero que ainda nesta vida pense nisso. E que sua pele armênia seja salva de suas culpas.

Carolina[5:15 PM]
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Sexta-feira, Junho 29, 2007
PAI - AFASTE DE MIM ESSE CALICE!
Por Toalá Carolina
Seguro hoje, depois de dez dias de sua partida, uma carta escrita por você pouco antes de morrer.
Não a abri, desde que ela chegou. Acho que não vou abrir.
Olho sua letra, passo meus dedos sobre ela para sentir suas digitais.
Você não existe mais aqui nesse mundo. Foi o que restou para mim, suas letras.
Talvez resquícios das células do seus dedos no papel.
No dia em que partiu, eu senti pai.
Acordei estranha, nada se encaixava.
Nada servia, nada prestava.
Fazia frio. Um frio estranho. Um frio nos ossos.
Senti uma vontade de sair sem rumo para qualquer lugar, parei no prédio velho da PUC. Corri para ver a Thalita, para ficar perto dela.
Não consegui sair de lá. Não consegui sequer piscar. Sabia que já faltava alguma coisa.
Sentei entre as árvores centenárias do pátio, mal respirava. Estava ligada no automático para viver.
Comprei um Ovomaltine. Engoli. Não fez efeito, eu tremia inteira, a minha alma tremia.
Olhava o movimento das pessoas entrando e saindo, subindo e descendo a rampa, rindo, lendo, estudando.
Na realidade não vi o rosto de ninguém. Via vultos, imagens desfocadas.
Ficava pensado qual seria minha reação se você de fato partisse, pensei o tempo todo em não voltar para casa por tinha certeza absoluta que alguém falaria:
“Teu pai morreu”.
Eu sabia, mas não queria ouvir, porque pensei que se não escutasse não aconteceria. Que boba sou né pai?
Então, sentei e fiquei, por mais de 5 horas no mesmo lugar.
Tentei ler um livro, as letras embaralhavam, não conseguia passar da segunda frase. Desisti.
Passei a rezar o terço. Uma, duas, três, quarto, dezoito... Todas sem o “Salve Rainha” pois até hoje não decorei.
Pedi para Nossa Senhora de Fátima para não deixar te levarem, prometi te visitar como me pediu milhões de vezes, e não fui.
Imaginei seu corpo na cama do hospital, fechei meus olhos e covardemente imaginei minhas mãos segurando as tuas, pois não tive essa coragem de estar ao seu lado nessa hora difícil. Me perdoa.
Pensei se estava com frio. Chorei.
Acho que nunca rezei tanto na vida. Todos meus problemas ficaram tão pequenos...
Quando anoiteceu, eu estava no mesmo banco de madeira, na mesma posição, meu telefone tocou.
Quando tocou, soube imediatamente que era a noticia que eu evitei o dia inteiro, aliás a vida inteira.
“Toalá, não tenho notícias muito boas, venha para casa com sua irmã”
“Meu pai morreu né?”
Silêncio.
Nunca um silêncio doeu tanto no meu peito.
Não chorei.
Olhei imediatamente para o céu. Que estava incrível, e uma estrela enorme ofuscou tudo, meu coração doeu, era uma dor física.
Rezei um Pai Nosso.
Não senti mais meu corpo.
A sensação era como se eu estivesse há 80 metros de altura em uma corda bamba sem segurança, e eu precisava atravessa-la.
Pensei em tantas coisas que queria te dizer.
Pai, apesar de tudo, eu te amo.
Pai, apesar das marcas eu te amo.
Pai, vai em paz.
Corre até minha irmã, ela é meu principal elo com você, ela é testemunha de tudo que enfrentamos por toda a vida por causa do seu alcoolismo.
Subi as rampas do prédio novo da PUC e pedi para Deus me enviar um anjo para segurar minhas mãos e lágrimas, para ser forte para minha irmã.
Quando a vi, ali, chorando, não disse nada.
Pensei. Acabou querida... Nosso pai deixou seu corpo doente para ter uma vida melhor.
Sorri.
Comi para ficar forte.
Comi para ficar forte para todos.
Pra você também pai.
Nunca pensei que eu fosse tão forte sabia?
Tive que ir ao IML. Tremi ao ver o terno que iriam colocar em você. Pensei:
“É a ultima roupa que meu pai vai usar”
Ali, desmoronei. Fiquei sentada nas escadas pensando que você já não estava mais naquele corpo que era violado. Já estava longe.
Quando entendi isso, fiquei em paz.
Fui ao seu enterro, na despedida do seu corpo. Sua alma já tinha ido.
Desculpe pai, por não conseguir te ver pela ultima vez. Não queria ver aquilo que sobrou.
Fiquei ali, tomando café, ao lado, vendo as pessoas entrando e saindo da sala 4, onde estava.
Não tive forças.
Sentei ao lado de fora e pude ver o campo do cemitério, novinho... Pensei: “poxa pai, que bom, olha que lugar bonito minha mãe conseguiu para você...”
Cheio de dignidade, coisa que você já não tinha há muitos e muitos anos. No seu descanso pelo menos...
Vi, como se estivesse num filme, onde seria enterrado.
Vi seu caixão saindo, minhas pernas falharam para seguir. Então me enchi de coragem e acompanhei o cortejo com meus olhos também falhos.
Vi subindo aos poucos, e lá no vale, seu caixão descendo.
Queria poder estar vestida de bailarina para você, lembra como gostava de me ver dançar e cantar em francês? Mas pareceria uma louca então coloquei branco dos pés a cabeça para que se você me visse ali, se sentisse em paz, queria que você me visse em destaque no meio de tantas pessoas de preto.
-Olha pai, to aqui, de brancoooooo!!!!!! Olha eu aqui pai!
Foi minha pequenina homenagem.
Muito pequena.
Pai... Que bom que abandonou esse corpo doente. Agora poderá se curar.
Não pude fazer mais, me arrependo.
Agora estou aqui com sua carta nas mãos, quem sabe um dia eu tenha coragem de abrir.
Vai pai... Segue em frente que faremos o mesmo daqui.
Te amo.
PS. Diga Adeus Lilica!!!!! ADEUS LILICA!
PS2. Até qualquer dia desses, com certeza.
Sua filha
Toalá Carolina.

Carolina[4:15 PM]
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Quarta-feira, Junho 27, 2007
TÃO POBRE QUE SÓ TEM DINHEIRO
Por Toalá Carolina
Típica segunda feira, com ela novamente o trânsito, pessoas apressadas e sem educação, uma loucura infernal.
Será típica essa segunda feira?
Claro que não. Pare para pensar. É mais uma segunda feira de vida. É mais um dia que está vivo, atuante.
Pouco importa a denominação do dia da semana, as pessoas levam a vida a sério demais.
O segredo é viver um dia de cada vez, todo o dia como se fosse o ultimo dia, pois um dia será e você não sabe quando.
Mas pessoas medíocres, mesquinhas, incultas e ignorantes são como Bradesco, Fusca, pombas e Igreja Universal, estão em todas as esquinas certo?
CERTO.
Pessoas que acham que jamais vão morrer, quem morrem são apenas seus parentes e vizinhos alguém do noticiário das oito, elas não, são inatingíveis e imortais.
A maioria têm seus empregos, contas pagas, carro, uma certa estabilidade financeira, outras já são aposentadas, passaram mais que a metade de suas vidas no mesmo emprego, ocupando a mesma cadeira e mesa. Outras se casaram, tiveram filhos, os formaram, outras não.
O que fizeram de especial na vida além do básico? São tão medianas e desinteressantes que nem os nomes no SPC tiveram. Nem isso.
Pagaram todas suas contas em dias, não compraram quase nada em 12 x, tudo correu de forma simples, normal, mediana.
Observando muitas dessas pessoas que eu tenho a infelicidade de ter que conviver, vejo que elas não fazem nada além de receberem seus vencimentos e pagar suas contas em dia.
SÓ.
Isso é especial?
Isso faz de alguém melhor do que aquelas pessoas que por uma obra da desgraça foi morar nas ruas?
NÃO.
Não faz. Mas elas acham que sim. São superiores e afortunadas.
São pessoas tão pobres que só tem dinheiro na vida. Às vezes algum, ou alguns diplomas para pendurar na casa da mãe, tão medíocre quanto ela que só tem isso também para poder mostrar para os vizinhos, e comer bolo pulmman à tarde assindo a novela..
Nunca tingiram seus cabelos, nunca saíram na porrada com alguém, nunca largaram um amor, nem foi largada também, nunca foram a uma boate gay, nem a igreja zombar do padre, nunca tentaram se matar, nem ao menos viver de verdade.
Até conhecerem seu próprio avesso, lhes garanto, não hão de saber o que é felicidade.
Saber o que liberdade quando já se esteve preso, comer muito bem quando não teve nada para comer um dia, poder vestir uma roupa que já não lhe cabia mais, se formar quando ninguém mais acreditava.
Estou falando tudo isso porque eu estava ontem em um dos cafés que freqüento, sem um pensamento definido, apenas preparando um projeto para mestrado, quando atento a um senhor, de aproximamente 70 anos de idade, relativamente bem vestido, e pediu um café para a funcionária.
Notei de cara que ele não conhece a palavra “por favor”, o que me irrita profundamente e assim já retornei ao que estava escrevendo, sem dar mais atenção, quando entra de forma muito rápida, um moço, de uns 20 anos, com roupas bem simples e surradas, pedindo para esse senhor lhe pagar algo para comer.
Olha, se tem uma coisa que me tira do eixo é saber que tem alguém passando fome, a fome para mim é algo inadmissível.
O rapaz olhava para a vitrine de doces de maneira muito triste e imagino que pedir comida assim, para estranhos deva ser algo absurdamente degradante, esperei para ver a reação do senhor.
Ele olhou por baixo dos óculos com um olhar sério, rígido e disse um redondo
NÂO para o rapaz que saiu mais rápido do que entrou, nem eu pude fazer alguma coisa por ele.
Senti-me extremamente mal com a atmosfera que a situação criou, e eu nem soube disfarçar ao odiar e aniquilar com meu olhar aquele senhor, que aos meus olhos, é muito mais pobre e miserável que o moço humilde.
Tentei me concentrar nos meus estudos, quando que senti a presença do homem meu lado, sorrindo como um demônio feliz, pasmem, me oferecendo o chocolate que acompanhava o café, e com a mão estendida certo que eu pegaria disse confiante:
-Sou diabético mocinha, coma-o por mim.
Bege, eu respondi:
-Não senhor muito OBRIGADA (palavrinha que ele desconhece) eu tenho o meu. Tem gente por aí precisando mais dessas mãos estendidas.
Rapidamente ele recuou, vendo que não sou uma garota das mais simpáticas e amistosas.
Virou-se e foi pagar seu café no caixa.
Tirou do seu boldo esquerdo, notas arrumadinhas de R$100,00 e R$50,00, intercalando-as, todas sistematicamente ordenadas por valores, até que chegou nas R$2,00 e entregou a caixa.
Sei porque fiquei mesmo olhando para ele, indignada e jogando minhas WICCAS e pragas naquele velho nojento.
Pensei, é típica essa gente medíocre, na qual falei acima, que passa a vida toda no mesmo emprego de bosta, fazendo a mesma merda, convivendo com as mesmas pessoas, freqüentando os mesmo lugares e pagando suas contas.
Tão pobre que só tem dinheiro.
Tão mesquinho que dá asco.
Não adianta argumentar com pessoas assim, vieram na terra fazer filho e figuração nas repartições públicas.
Depois fiquei me perguntado, quem se casa com uma pessoa assim?
Nem é feia, não é bonita, não é inteligente, nem retardada, não desenha, não pinta, não faz rir, não faz chorar, não faz comentários espirituosos, nunca fez ninguém sonhar.
A resposta é: pessoas tão medíocres quanto.
Então, por favor, me achem uma
louca, porque eu pinto meu cabelo, tenho tatuagem, pinto as unhas de vermelho, escrevo, xingo, dou risada alta, sou maldosa, às vezes sou boazinha, canto alto, beijo os cachorros de rua, sonho com coisas praticamente impossíveis, gasto muito, como muito, e durmo pouco para fazer tudo isso mais e mais antes eu morra.
Sinceramente? FODA-SE
ANTES DOIDA DO QUE MEDIOCRE.

Carolina[7:33 PM]
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Quinta-feira, Junho 14, 2007
VIADUTO NOVE DE JULHO
Por Toalá Carolina
Os olhos abriram forçados, o pouco que via eram as horas que marcavam no relógio, 11:23 AM. Sua boca estava seca, amarga. Seu corpo doía, mas não estava machucada, somente sua alma.
Olhou para o telefone, que insistia em não tocar, aos poucos foi se lembrando da noite anterior.
O corpo da moça refletia sua alma, de 56 quilos passou em menos de um mês para 47, definhava.
Mês de Setembro, dia lindo e gelado, céu de brigadeiro. Ela mal conseguiu se levantar, não sabia mais o que fazer, tinha a sensação que não tinha nada mais na vida que valesse a pena continuar.
Com dificuldades, se levantou, postou-se à frente do espelho, e o que ela viu ali, era qualquer coisa que restou de uma pessoa, de uma garota. Estava em pele e osso, com os cabelos cheios de nós, as unhas comidas, pálida, sem cor alguma na face.
Não, não era ela.
Era um resto dela.
Pensou em ligar para ele, pegou várias vezes o telefone, antes de chamar, desligava.
Ele foi muito claro e objetivo na noite anterior "Não quero que me procure nunca mais".
Ela ainda sangrava do aborto recente que tinha feito. Esperava gêmeos.
Abortou porque ficou morta de medo de não ter apoio algum de ninguém, era muito nova, muito imatura, mas amava o rapaz. Assustada é a palavra, assim como ele, assustado com a nova situação. Os dois, sem saber o que fazer, fizeram uma besteira atrás da outra, uma sucessão de erros e atitudes impensadas que não poderiam ter como conseqüência outro resultado sem ser aquele.
Ela não era culpada, nem ele. Se existia algum culpado ali, era a imaturidade de ambos.
Mas depois disso, ele mudou bastante com ela, passou a vê-la com menos freqüência, dar menos atenção, e ela não tinha ninguém para se apoiar ou contar algo tão intimo e que obviamente as pessoas julgariam.
Fechou-se em seu mundo minúsculo, sem perspectiva, sem esperanças, sem nada. Era ela e o seu segredo.
Depois de se descontrolar de todas as formas possíveis, ele se cansou de agüentar tantos choros, tantos lamentos, variações de humor e resolver colocar um ponto final e definitivo com a moça.
Na noite anterior, ela ligara para ele continuadamente, sem sucesso, quando soube pela mãe dele que estava no Joaquins, com uma outra pessoa, uma nova namorada.
Já era tarde da noite, como ele acompanhado se sua mãe, foi ter uma conversa final, definitiva, para que ela o deixasse em paz.
No dia seguinte, quando ela estava em frente ao espelho, e se deu conta de sua real situação, resolveu tentar uma última conversa, qualquer ultimo argumento.
Ligou para ele, dessa vez deixou tocar. Ele atendeu.
Ela pediu para falar com ele, tentou balbuciar qualquer coisa pedante, implorar. Ele foi seco e disse que precisava desligar, pois sairia para estudar.
Desligou.
Ela se arrastou até o armário, colocou a única calça que ainda lhe servia, uma camiseta azul clara, tênis. Amarrou o cabelo com qualquer coisa, atravessou corredor, sala, hall, desceu.
Pegou um táxi, mal andava. O sangue ainda lhe corria continuamente, já não comia havia quase dois dias inteiros. Não tinha condições para nada.
Quando o táxi foi se aproximando do prédio dele, ela pediu para descer, rezou antes de entrar, nem sabia se Deus ainda a ajudaria depois de ter feito um aborto, mas pediu. Pediu para ele a atender, a escutar.
Sua família já soubera do que tinha feito, ninguém em casa falava com ela, todos lhe deram as costas.
Entrou pelo portão, seu coração estava na boca, pediu para o porteiro chamá-lo. Assim o fez, quando notou uma expressão estranha no porteiro, que só balançava a cabeça, como que concordando.
Não fazia mal, todos a estavam julgando, virando-lhe as costas. O julgamento do porteiro era o de menos.
Sentou-se no banco de madeira escura do Hall, cruzou as pernas para que o sangue parasse de escorrer, baixou a cabeça, rezou.
Não sabe dizer quanto tempo demorou para descer, mas quando viu a porta do elevador se abrir, notou que era ele. Vestia jeans e camiseta branca, New Balance 1600 cinza, cabelo molhado e apostilas em mãos.
Assim que colocou os olhos nela, não conteve a expressão de ódio, e a pegou pelo braço, a levantando para sair, colocou ela em frente ao espelho do hall e disse:
-Você é ridícula, olha pra você, está horrível, parece um fantasma.
Ela não respondeu, ficou olhando para sua imagem refletida e a dele atrás, lindo, sadio, ativo, seguro. Sentiu um fio de sangue escorrer entre as pernas, e se tivesse como, o sangue escorreria pelos olhos.
Fez um novo movimento segurando ela pelo braço a arrastando para fora e disse ao porteiro
-Nunca mais a deixe entrar aqui.
Quando chegou um passo depois do portão, ele a soltou. Não disse nada, saiu andando, subindo a rua que morava.
Ela ficou por uns segundos ali, parada.
Sua visão turva, não só de lágrimas, mas de fome, de sensação de pesadelo, de fraqueza.
Quando olhou para ele novamente já na metade da rua, olhou para os carros e pensou que qualquer um dele poderia colocar fim a sua vida, que para ela não valia mais nada.
Mais fundo que aquilo não poderia chegar mais, só morrendo.
Não teve coragem, e com fiapinho de energia que lhe restava, passou a segui-lo, subindo a ladeira ingríme, cheia de carros, cheia de pessoas andando para seus trabalhos, afazeres, era um dia útil qualquer.
Quando chegou ao topo da rua, o alcançou, e passou a implorar que ele a escutasse. Mal sabia ele, era só virar e ouvir, nada mais.
Ele a repudiava, ofendia, a chamava de louca, e claro, estava em um estado de pessoa insana, não era louca, mas estava completamente insana.
Nenhuma palavra dele surtia efeito, ela mesmo sem forças ainda andava atrás dele, pedante, se humilhando, implorando só que ele a ouvisse.
O coração dele era firme e gelado.
Assim caminharam por alguns metros, desceram as escadas do viaduto Nove de Julho, de frente para o MASP.
Nada é por acaso e esse passo foi extremamente infeliz.
Quando eles chegaram no começo do viaduto, o rapaz já bem irritado com a insistência inconveniente da moça, fez uma sugestão:
-Por que não aproveita e se mata aqui?
O tempo parou ali.
Ele de frente para ela.
Ela de frente para ele.
Ela olhou para a altura que estava, pensou que poderia sim, acabar com a vida ali. Não tinha mais nada a perder.
Respirou fundo, se posicionou em frente à grade de ferro do viaduto e atravessou para o outro lado.
O que ela pensava?
Simples. Nada.
O que uma pessoa que chega num ponto desses de degradação pode pensar, alguma coisa racional, sã?
Quando alguém precisa estar infeliz para chegar a um ponto desses? Alguém consegue imaginar isso?
Isso pode ser julgado por qualquer pessoa que jamais tenha passado algo semelhante?
É para pensar...
Ela atravessou a grade, e ali, passou a não ouvir nada, escutar nada, não sentia nada, nem seu corpo que formigava inteiro.
Olhou algumas vezes para trás, viu o rapaz, mas sua visão estava embaralhada demais, era tudo surreal, as apostilas dele estavam no chão, jogadas.
Ela não rezou ali. Não chorou. Não pensou.
Depois de algum tempo, não se sabe quanto, a rua foi interditada pelos bombeiros, passou a ouvir muito baixinho, sirenes, gritos, e ela se segurava nas barras de ferro da grade.
Fazia frio.
Ao lado do seu ouvido ouviu um senhor dizer:
-Menina, não fala isso, você é muito nova, tem a vida toda pela frente, eu não sei o que aconteceu na sua vida, mas esta não é a solução, Deus te quer viva.
-Moça, fale comigo, o que te fez fazer isso.
A moça fechou os olhos. Não era possível que estivesse ali, era um pesadelo, era sim. Queria sair voando e acordar em sua cama.
Não acordava.
Ainda ouvia palavras agora de muitas pessoas, para não tirar sua própria vida. Por vários momentos pensou em se lançar, não tinha coragem.
Quando o homem falou em Deus, alguma coisa a fez se apegar a si mesma, nem em Deus, mas a si.
Olhou para baixo, viu os carros bem pequenos passando. Imaginou seu corpo ali, estendido.
Não... Não conseguiria.
Quando se deu conta, ouvi a voz da mãe dele dizendo:
-Não, de novo não.
Não entendeu o "de novo não".
Quando sentiu que não tinha mais forças no corpo, quando pensou que fosse apagar, os bombeiros a puxaram para o outro lado, a deitaram no meio da rua, os olhos dela vagaram ao redor, ela pode ver ainda o rapaz dando as informações pessoais dela para o resgate.
Foi colocada dentro da ambulância, caiu em prantos num choro interminável, intenso, desesperador.
Sentiu os tapas no rosto que o médico lhe dava para acalmar. Ali, perdeu os sentidos, dali não se lembra de mais nada.
Quando acordou, estava em uma maca, amarrada.
Tudo branco em volta, uma luz forte fez doer os olhos. Ela nem sabia onde estava, se era real, se era sonho.
Olhou seus braços, estavam muito machucados, seu rosto inchado, a calça jeans grudada de sangue frio. Quando alguém disse:
-Moça, você sabe onde está?
-Não.
-Você está na Santa Casa, lembra-se o porquê de ter parado aqui.
-Não, não me lembro.
-Você está na ala de Psiquiatria, veio trazida pelo Resgate, tentou o suicídio ao se pendurar no Viaduto da Avenida Nove de julho.
Ali ela começou a ter visões, picadas, de alguma coisa, nada muito esclarecida.
A médica perguntou ainda:
-Que dia é hoje?
-Não sei.
-Em que cidade está?
-São Paulo.
-Qual é a sua idade?
-21 anos.
-Você gostaria de ficar internada aqui?
-Gostaria.
Ela pediu para ser internada, para a moça, a vida havia acabado mesmo sem ter morrido. Existem vários tipos de morte e a morte de fato é não viver mais feliz, nem em paz.
A médica passou a querer saber do porque da situação da moça, ela aos poucos foi se lembrando, foi falando. A médica então percebeu que ela não era uma louca e num gesto atípico, segurou a sua mão machucada, fez carinho, pegou um pano úmido e passou a limpar seus barcos, sujos de ferrugem, de tinta, alguma coisa cinza chumbo.
Foi a primeira vez, em meses, que alguém cuidava dela, tinha um gesto de carinho.
A médica disse que ela não ficaria internada, pois não merecia sofrer mais do que aquilo. A medicou, pediu que lhe dessem um banho morno, e quando ela foi colocada no chuveiro, a enfermeira lhe esfregava com cuidado, dizendo que ela era uma menina que um dia daria orgulho para a família, passou a falar manso, dizendo que a moça seria amada, casaria, teria filhos...
O que é um sorriso de um estranho quando nada se tem. Uma mão segurando a sua quando ninguém mais quis segurar, um banho e a moça ali, completamente despida de pudores e vergonhas, seu corpo era um saco de ossos e todo machucado.
É o que ela conseguiu se lembrar.
Nunca mais em sua vida, essa moça esqueceu desse carinho, nunca mais deixou de ajudar alguém que solicitava, ou de ouvir alguém contando um problema.
Ficou sim, pendurada num viaduto. Ela não sente vergonha. Muito pelo contrário, exatamente a passagem é o divisor de águas de sua vida.
Toda a semana vejo essa moça no vão do MASP sentada, de frente ao local onde tudo isso aconteceu, e ela mesma me contou, que vai ali para ver que é
sim possível, ser resgatada e um dia poder olhar literalmente de frente ao seu próprio avesso.
Perguntei a ela se ela tinha feito tudo aquilo que a enfermeira disse, e ela serenamente disse que havia casado, era amada, tinha uma casa linda, havia se formado, e estava na luta para realizar seus sonhos.
Tornou-se escritora também.
Não lhe disse mais nada, fiquei ali com ela, contemplando o agito das avenidas e pensando que o maior resgate que alguém pode receber é um pouco de amor.
Curiosamente mais tarde a moça ficou sabendo que o avô marterno do rapaz, tinha se matado pulando de um viaduto na década de 40.
Quando desci para ir embora ela me disse:
- Eu só queria que ele tivesse me ouvido...

Carolina[7:53 PM]
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